Fé e Política

Dos mitos de nascimento divino ao comércio da sociedade do consumo

André Barroso

Em meio ao marasmo e ressaca que quase sempre marca uma grande data festiva de âmbito mundial, pelo menos onde se constituiu o cristianismo, foi ao ar o Programa Fé & Política pela Rádio Bicuda FM, 98,7 no dia 25 de dezembro de 2010, cuja pauta era dar um tratamento histórico e social para o tema do natal tendo como base as narrativas da infância em Mateus e Lucas em contraposição ao espírito extremamente comercialista pelo qual a data foi tomada, principalmente na contemporaneidade.

Nosso convidado foi o Prof. Lair Amaro pesquisador da área de cristianismo antigo cuja principal ocupação é promover cursos em cristianismo antigo no Centro Loyola de Cultura e Fé-PUC-Rio. Em tempo vale destacar que ele estará ministrando um curso a partir de março sobre o Apocalipse e o embate com o império Romano.


Com intervenções dos programadores e dos ouvintes através do telefone e e-mail, o professor Lair desconstruiu uma visão moderna de mito que relaciona com mentira, ficção e crendice, dizendo que o mito tal e qual se aplica na antiguidade deve ser tratado dentro de um processo de racionalidade, pois não um momento específico onde termina o mito e começa a razão, para os antigo o mito é também uma construção racional cercada de toda a historicidade que compõe o mundo antigo, inclusive o divino, o mágico o extraordinário.

Partindo deste pressuposto ele afirma que as narrativas da infância são míticas e surgem em um tempo e espaço específicos de duas comunidade, Lucas (exaltando a figura da mãe Maria) e Mateus (dando destaque para o papel do pai José), com leituras de um evento completamente diferentes, sem referências em escritos anteriores como nas cartas autênticas de Paulo ou no Evangelho de Marcos (50/70 d. EC) e mesmo posteriores nos escritos atribuídos a João ou à comunidade do discípulo amado (100 d. EC). Assim, as narrativas da infância cumprem um papel específico no interior de duas comunidades que, segundo Lair, se insere em uma relação de poder entro dois tipos de judaísmo, o judaísmo farisaico e o judaísmo de Jesus.

Lair ressaltou a importância das releituras do cristianismo na modernidade onde se acentua o antiimperialista da mensagem, ainda que tenha que se acentuar que Jesus, nas imagens dos evangelistas, tenha como principal propósito fazer a vontade do Pai, esta vontade não se coaduna com o interesse imperialista romano aplicado na Judéia e na Galiléia pelas mãos das elites e das autoridades político-religiosas. Tanto o é assim que ele teve como prêmio uma morte conquistada apenas por aqueles que se apresentavam como rebeldes ou desafiavam o sistema imperial e sua estrutura de dominação pautada no poder político, na força militar e no poder econômico.

Atualizando o tema, torna-se um paradoxo o uso comercial do nascimento de Jesus por dois motivos. A saber: a) a data comemorativa é uma construção, já que as narrativas da infância o são igualmente. Sendo assim, não se pode precisar a ano do nascimento, quanto mais seu dia, pois o nascimento extraordinário está relacionado com uma vida extraordinária e não o contrário; b) a simplicidade como o mito do nascimento se apresenta nas narrativas da infância e vida do menino-deus desafia qualquer opulência e uso comercial que esconda a injustiça contra o órfão e a viúva, que fez do templo um esconderijo de ladrões.

O recorde de venda batido pelos shoppings e lojas a cada natal esconde um trabalho desumano a aviltante, onde só se aprofunda a mais-valia seja ela relativa ou absoluta, um trabalho alienado de homens e mulheres, que muitas vezes são dispensados tão logo se acabe a necessidade do comércio.

1 comentários:

Anônimo | 30 de dezembro de 2010 10:01

Infelizmente para muitos o Natal virou uma celebração com muita comida e só.

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