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Felipe Pena: O Marido Perfeito Mora ao Lado (Ed. Record)

Vitor Orlando Gagliardo - jornalista

govitor@yahoo.com.br


Sua melhor descrição é feita pelo próprio: escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio e Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III. Estou falando de Felipe Pena, autor de oito livros acadêmicos e dois romances. Em uma entrevista exclusiva ao Blog Desburocratizando, ele fala sobre seu mais recente trabalho, o livro ‘O Marido Perfeito Mora ao Lado’ (Ed. Record), que classifica como uma história de amor. “O livro é uma comédia romântica em que discuto a questão do desejo”.


1. Em uma entrevista, você disse que o livro ‘O Marido perfeito mora ao lado’ é uma história de amor que fala sobre a incomunicabilidade dos casais. Fale um pouco mais.

O livro é uma comédia romântica em que discuto a questão do desejo. E coloco vários casais para discutir a relação. Mas tento fazer isso de maneira leve, mas profunda. Ou seja, misturo bom humor e conhecimentos psicanalíticos. O marido perfeito mora ao lado, então, é uma história de amor. Fala da incomunicabilidade entre os casais, da dificuldade de entender o outro, das armadilhas da paixão. Eu só podia falar sobre isso em uma linguagem simples, direta, pois são problemas pelos quais todos nós já passamos. Mas é claro que eu escolhi uma estratégia narrativa com a pretensão de prender o leitor, de não deixá-lo largar o livro. Há muitas viradas no enredo, muitas surpresas. E eu espero que o final seja surpreendente.


2. Você já afirmou que a literatura brasileira contemporânea é contemporânea era chata, hermética e besta, além de prestar um desserviço à leitura. Mantém essa posição?

Eu fui obviamente generalista naquela entrevista. Fiz isso de propósito, para provocar o debate, não citei nomes. Mas é fácil verificar que boa parte dos escritores contemporâneos não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não quero dizer que esse tipo de literatura não deva ser produzida. É o contrário. Respeito e admiro muitos destes escritores. Cada um escreve como pode. Apenas defendo que também exista espaço nos suplementos literários para escritores que estão preocupados em formar leitores, com enredos lúdicos e bem articulados, que resgatem o prazer da leitura.


3. Como é escrever um romance no Brasil, um país que ainda não tem uma tradição em leitura, mas que as escolas insistem que os alunos leiam Machado de Assis?


A literatura brasileira contemporânea tem poucos autores dispostos a contar uma boa história, sem a preocupação de produzir experimentalismos e jogos de linguagem, mas eles convivem com o receio de serem arbitrariamente rotulados como superficiais. Só que a realidade é inversa. Escrever fácil é muito difícil. Em literatura, entretenimento, não é passatempo, é sedução pela palavra. E se for apenas passatempo, qual é o problema? Apesar da tão apregoada diversidade da prosa nacional, uma parte da crítica acadêmica (sou professor universitário e isso é um mea culpa) dividiu-a em pólos antagônicos. Quem não é moderninho, é superficial. E ponto final. Essa é a generalização leviana da nossa literatura. É ela que produz distorções, afasta leitores e joga sua névoa sobre o mundo literário. Recentemente, o Zuenir Ventura tocou nesse assunto em sua coluna no Globo ao falar sobre os romances que são obrigatórios para os adolescentes na escola. Se não houver prazer na leitura como vamos formar leitores?


4. No livro Teoria do Jornalismo, você enumera diferentes teorias, entre elas, uma sua, a Teoria dos Fractais Biográficos ou a Biografia Sem-fim, que seriam as biografias escritas por jornalismo. Em qual teoria se insere o jornalista-escritor de romances?

Em nenhuma delas. Na verdade, não estou preocupado com isso. Do jornalismo, trago as técnicas de apuração e síntese, o gosto pelo detalhe e a pressão do deadline, que é minha principal fonte de inspiração (risos). Mas não sigo a orientação canônica do doutorado em literatura. Os ditames da academia atrapalham o escritor. Hoje, há muita gente escrevendo apenas para agradar a uma parcela da crítica, cujos parâmetros de análise ainda seguem um modelo obsoleto de análise da linguagem. Sou professor, oriento teses de mestrado e doutorado, mas tento evitar essa má influência (risos).


5. Entrando no mundo jornalístico, como você avalia a cobertura da mídia na pré-campanha eleitoral para a Presidência da República?

Estamos em fase embrionária. Mas acho que os meios digitais terão um papel muito mais importante este ano.


6. Você acredita no mito da imparcialidade da imprensa? Não seria mais fácil se os veículos assumissem uma postura editorial específica?

Imparcialidade pressupõe ausência de subjetividade e isso é impossível. As pessoas confundem as coisas. O lead não foi criado para negar a subjetividade, mas por reconhecer que ela é inevitável. É o método que pode ser objetivo, não o jornalista.

3 comentários:

Anônimo | 2 de julho de 2010 12:00

Muito boa essa entrevista. Adorei o livro.

Bruno Anselmi | 21 de julho de 2010 11:24
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruno Anselmi | 21 de julho de 2010 11:27

Ótima entrevista!
Ainda não tive oportunidade de ler "O Marido Perfeito", mas já li o outro romance do Felipe Pena "O Analfabeto que passou no vestibular", que é fantástico!
E ele tem toda razão em defender um espaço para os demais tipos de literatura. Não existe um único caminho, não existe um método certo, nem em literatura nem nas demais manifestações artísticas, há, ao contrário, infinitos caminhos e todos merecem seu espaço.

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